“Amor, não vou pagar o aluguel esse mês”: tensões entre modernidade e tradição nos relacionamentos amorosos
- Bruna Heleno Zarske de Mello

- 13 de fev. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 19 de fev. de 2025
Texto por: Bruna Heleno Zarske de Mello e Tarissa Nicolodi (@psitarissanicolodi).
A jornalista e ativista estadunidense Betty Friedan, em sua famosa obra “A mística feminina” (1963), colocou em palavras escritas, pela primeira vez, “o problema que não tem nome” que acometia mulheres que se perguntavam se a vida familiar era tudo que elas tinham a viver. Friedan falava da vida suburbana das mulheres brancas nos Estados Unidos, uma realidade ao estilo daquela apresentada no romance de “horror feminista” The Stepford Wives, em que mulheres inteligentes e criativas transformavam-se em esposas complacentes dedicadas exclusivamente ao trabalho doméstico e ao parceiro. O papel delas era de cuidadoras (dos parceiros, dos filhos, do lar), o papel dos parceiros em contrapartida, era o de provedores.

A composição desses papéis de gênero, na realidade objetiva, é um processo histórico e social, que se deu por meio da construção e do intenso compartilhamento de representações, práticas e narrativas, que foram informando o que as pessoas entendem por masculinidade e feminilidade. Longe de ser um processo puramente natural e cristalizado, o que é ser mulher ou homem é principalmente aprendido.
As mulheres aprenderam desde cedo a valorizar os relacionamentos românticos como um aspecto central de suas vidas. Essa ênfase no amor romântico como fonte de identidade e valor pessoal colocou, e ainda coloca, uma pressão significativa sobre as mulheres para que elas conformem suas práticas e desejos às expectativas masculinas. Por sua capacidade biológica de gestar, elas foram vistas como cuidadoras ontológicas e, majoritariamente, procuraram por meio de suas práticas diárias responder a esse ideal.
As experiências dos homens nos relacionamentos também foram orientadas por expectativas sociais e pedagogias de gênero. Os homens aprenderam que, para serem “homens de verdade”, eles devem se destacar no campo sexual e laboral. A convicção de que a condição financeira estaria intimamente relacionada à masculinidade, muitas vezes levou os homens a priorizarem sua vida profissional.
O grito de Friedan foi de que a vivência do lar e da maternidade eram insuficientes para as mulheres. Elas queriam mais e precisavam de mais. Queriam carreiras, queriam independência financeira, queriam votar, queriam acesso à educação e à saúde, queriam ter seus corpos respeitados, queriam livrar-se da opressão sexual que as impedia de desejar e experienciar prazer e queriam escolher seus próprios caminhos para além daquilo que passou a ser esperado delas, o cuidar. E, aos poucos, elas foram lutando, conquistando e fazendo mais. O ampliamento da noção de feminilidade, levou as mulheres a outros patamares e elas passaram a questionar e reconsiderar diversos aspectos de suas vidas, incluindo os relacionamentos românticos e sexuais.
Com mais cesso à educação e melhores oportunidades de trabalho, as mulheres passaram a construir suas trajetórias profissionais e pessoais de forma mais autônoma, o que levou ao adiamento, ou até a não vivência do casamento. Dados da pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as brasileiras e brasileiros estão se casando cada vez mais tarde e se divorciando com mais frequência. Em 2020, 6,3% das mulheres que se casaram tinham 40 anos de idade ou mais. Esse número aumentou para 24,1% em 2022.
Da mesma forma, desde 1960, o Brasil vive uma constante diminuição nas taxas de fecundidade. Em 1940, as mulheres tinham em média 6,16 filhos (as), sendo que esse número caiu para 1,87 em 2010. A projeção é que por volta de 2030, deve ser alcançado o patamar de 1,5 filhos (as) por mulher, valor que permanecerá estável até 2050, conforme dados do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC). Ainda conforme o SINASC, as mulheres também estão engravidando mais tarde.
As mudanças econômicas, políticas, tecnológicas e culturais (incluindo a crescente valorização do individualismo), influenciaram os constructos mentais das mulheres, que afetaram profundamente as formas que elas vivem o amor romântico. Os conflitos que surgiram dessas novas mentalidades, parecem ter afastado homens e mulheres heterossexuais. Para algumas pessoas, o experimento insano de relacionamentos mais igualitários teria falhado, afinal as pessoas estão se casando menos e mais tarde. Elas estão se sentindo mais solitárias e menos conectadas emocionalmente. Nesse inquietante cenário, uma questão foi posta: seria a retomada dos papéis tradicionais de gênero dentro dos relacionamentos românticos a saída para esses conflitos?
Uma trend que surgiu no TikTok em dezembro de 2024 pareceu responder à questão de forma afirmativa. Em curtos vídeos postados no aplicativo, mulheres mostram as reações de seus parceiros quando elas compartilham com eles que não poderão ajudar com o pagamento do aluguel naquele mês. Em grande parte dos vídeos acessados, o retorno dos parceiros foi de indiferença, uma vez que as suas parceiras, por motivos de pertinência apenas ao casal, já não contribuíam financeiramente com as contas da casa. Em um dos vídeos mais acessados da trend, o homem filmado lembrou a sua parceira da importância de organização e responsabilidade financeira o que gerou inúmeros comentários críticos a ele, uma vez que ele não estaria cumprindo com o papel tradicional do homem em um relacionamento amoroso, o de provedor. A partir desse vídeo, outros surgiram analisando tanto a trend, quando os comentários postados, evidenciando tensões entre a modernidade e a tradição em relacionamentos amorosos.

Antes de qualquer coisa, é importante apontar que em plataformas como TikTok, algumas tendências são performances que buscam engajamento e visibilidade. Assim, o comportamento exibido pode ser tanto uma manifestação genuína da vida da pessoa que o compartilha, quanto um recorte distorcido da realidade. O comportamento exibido pode ser motivado por fatores subjetivos, culturais ou mesmo por estratégias de construção de uma identidade nas mídias sociais. Dessa forma, as tendências vistas nas redes sociais não necessariamente representam a totalidade das práticas e desejos das mulheres e dos homens.
Tendo posto isso, é importante resgatar os motivos que levaram as mulheres a ocuparem os espaços profissionais, deixando claro que no Brasil, as mulheres negras e pobres sempre trabalharam, mas os trabalhos exercidos por elas eram predatórios, desvalorizados ou não remunerados.
Além de mudanças nas estruturas econômica e política do país, o direito ao exercício do trabalho por parte das mulheres foi conquistado em decorrência de reivindicações dos movimentos feministas, que compreenderam que a dependência financeira desempenhava um papel central na manutenção das desigualdades de gênero, por criar um desequilíbrio de poder dentro dos relacionamentos amorosos e na sociedade como um todo.
Hodiernamente, ainda existem riscos e desafios associados à dependência financeira em um relacionamento, assim como à formação de parcerias baseadas predominantemente na oferta de bens materiais, como:
Perda da autonomia: quando a mulher depende financeiramente do parceiro, pode haver diminuição da sua autonomia para tomar decisões, tanto no âmbito pessoal quando no profissional. Essa dependência pode dificultar a saída de situações abusivas ou insatisfatórias, pois a segurança financeira se torna fator central na manutenção da relação.
Limitação para o desenvolvimento pessoal: a dependência financeira pode limitar o desenvolvimento e a realização pessoal das mulheres. Ter autonomia econômica permite investir em educação, projetos pessoais e, inclusive, na possibilidade de sair de uma relação que não esteja funcionando.
Valorização dos aspectos materiais: se a escolha do parceiro se fundamenta primordialmente no acesso a bens materiais, há o risco de que o relacionamento se torne superficial, com pouca profundidade emocional. Isso pode levar a um ciclo em que os afetos são secundarizados em relação as vantagens econômicas, o que, a longo prazo pode se mostrar conflituoso e insatisfatório.
Impactos na saúde mental e bem-estar: relações marcadas por qualquer tipo de dependência podem gerar estresse, ansiedade e insegurança. Não ter condições de tomar decisões de forma autônoma pode afetar profundamente a autoestima e a saúde mental da mulher, criando um ambiente de constante preocupação e vulnerabilidade.
Quem sabe, não necessariamente as pessoas estejam vivendo um “retorno” aos papeis tradicionais de gênero, mas sim uma renegociação das dinâmicas de gênero. É possível que mesmo em um contexto de mais autonomia financeira por parte das mulheres, a divisão dos espaços ocupados dentro dos relacionamentos amorosos permaneça complexa e em constante conciliação, refletindo escolhas individuais, fazendo com que a linha entre o tradicional e o moderno se misture de maneiras únicas e inesperadas.
Assim como a delimitação fixa de papéis, a imposição de critérios rígidos na escolha de um (a) parceiro (a) considerado (a) “ideal” também não parece ser uma boa resposta para os recentes desafios de viver um relacionamento amoroso. Frequentemente, a busca por um (a) pessoa ideal, está relacionada a espaços muito cristalizados de ser do (a) outro (a) e a normas e padrões que o relacionamento deve seguir. Esse processo tende a objetificar as pessoas e as relações, como se fossem produtos dispostos em prateleiras, prontos para serem consumidos.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio da nota “Retrato dos Rendimentos do Trabalho”, mostrou que a renda habitual média dos brasileiros foi de R$ 3.137,00 no primeiro trimestre de 2024. Já os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que apenas 1% dos brasileiros compõem o topo da pirâmide social, com rendas superiores a R$ 28.240, enquanto cerca de 75% pertencem às classes C, D e E.
Os dados compartilhados refletem a realidade financeira da maior parte da população brasileira, que “trabalha para viver” e se encontra muito longe da condição de acessar bens e espaços de luxo. É possível argumentar, que o Brasil tem uma população que, para viver com o mínimo de dignidade, precisa cooperar entre si, compartilhando responsabilidades financeiras com seus parceiros e parceiras. Assim como as mulheres, os homens também sofrem com o estresse financeiro causado pelos baixos salários e alto custo de vida; a diferença, é que o papel de prover recaí sobre eles.
O trabalho e o sucesso financeiro estão intimamente ligados a construção da identidade e ao valor dos homens na sociedade. Um homem que não “ganha bem” enfrenta vários desafios e pressões sociais significativos, sendo inclusive percebido como um fracasso pelas outras pessoas e experienciando isolamento social e amoroso. Ele pode sentir-se inseguro e indigno de uma relação, pois não é um “homem de verdade”. Essa insegurança (que é multicausal e subjetiva) é percebida pelas mulheres, que se reconhecem (e muitas vezes se queixam) como as pessoas que precisam cada vez mais iniciar os relacionamentos com os homens.
Alguns dos comentários lidos dos vídeos já mencionados, mostraram que algumas mulheres rejeitam qualquer possibilidade de envolvimento com homens que não atendam às suas expectativas de serem sustentadas. Por outro lado, há também queixas de mulheres que se sentem sobrecarregadas por assumirem a responsabilidade financeira tanto por si mesmas quanto por parceiros que elas julgam “acomodados”, além de todas as outras funções que historicamente lhes foram atribuídas, reforçando a ideia de que a mulher é a única responsável pelo sucesso da relação.
Argumenta-se que, em vez de reproduzir automaticamente papéis tradicionais de gênero, as relações contemporâneas podem ser estruturadas por meio de acordos que, dentro do possível, atendam às aspirações e necessidade de ambos os sujeitos. Esse tipo de relação valoriza a liberdade de escolha, que se adapta às circunstâncias do casal e aos projetos de vida de cada um. Muitas mulheres (e homens), assim como os homens, querem autonomia e parceria; e é precisamente a autonomia de ambas as pessoas, que permite a referida negociação.

Ao pensar em relacionamentos saudáveis, é essencial que a individualidade seja considerada. Um “nós” saudável não pode existir se não houver um “eu” completo. Para isso, é necessário estruturar alguns pilares individuais, como profissão, questões econômicas, momentos de lazer com amigas (os) e familiares, momentos a sós e cuidados com a saúde física e mental. Assim, torna-se possível construir um relacionamento baseado em parceria e, principalmente, em combinados próprios, com a participação de ambos comprometidos no desenvolvimento da relação. É também necessário atentar-se o quanto as ideias de relacionamentos amorosos estão sendo construídas com base nas experiencias e expectativas de pessoas desconhecidas vistas nas mídias sociais.
Fontes:
BRASIL. Ministério da Saúde. Portal da Saúde: SINASC. Disponível em: > http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinasc/cnv/nvuf.def<. Acesso em 25 mai 2024.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/15092-renda-media-do-trabalhador-brasileiro-cresce-4-0-no-primeiro-trimestre-de-2024-na-comparacao-com-o-primeiro-trimestre-de-2023?utm_source=chatgpt.com
Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/00519957d12982f96a3101bff0234ffe.pdf
FRIEDAN, B. The Feminine Mystique. New York: W.W. Norton & Company, 1963.
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ZANELLO, Valeska. A Prateleira do Amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações. Curitiba: Appris, 2022.




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