Dia Internacional das Mulheres 2025
- Bruna Heleno Zarske de Mello

- 8 de mar.
- 6 min de leitura
O Dia Internacional das Mulheres, comemorado anualmente em 08 de março, tem raízes históricas na luta das mulheres por direitos trabalhistas, políticos e sociais. Diferente de uma data meramente comemorativa, ele marca um dia de resistência, reflexão e reivindicação.

A proposta aqui, não é desconsiderar as lutas coletivas das mulheres, mas deslocar o foco da luta comum pelo espaço público e político e trazer uma dimensão mais íntima, emocional e subjetiva daquilo que podemos compreender como um campo particular de resistência. Esse 8 de março, foi construído para ser um dia de resgate de muitos dos aspectos das mulheridades que nos são inadvertidamente furtados na intensidade do quotidiano. Aspectos como: nosso corpo, nossos desejos, nossa sexualidade, nosso tempo, nossos sonhos, nossa voz e a nossa liberdade de existirmos acima de tudo para nós mesmas.
É possível que você pense que existir para si mesma é uma ato de egoísmo. Isso não é necessariamente verdade. É possível sim fazer parte de uma família, ter relacionamentos amorosos saudáveis, manter amizades gratificantes, sentir um amor incondicional pelos filhos e filhas e dedicar-se ao trabalho sem desapropriar-se. Sem perder de vista a sua essência. Contudo, essa é uma possibilidade pouco ensinada às mulheres e bastante subversiva.
Vivemos em uma sociedade que historicamente definiu o valor das mulheres a partir do olhar e das necessidades dos outros. Ainda meninas, aprendemos que somos mais aceitas quando agradamos as outras pessoas, quando cuidamos das outras pessoas, quando colocamos as outras pessoas em primeiro lugar. Somos ensinadas a nos doarmos sem limites, seja na família, nos relacionamentos ou no trabalho. Às vezes, nos doamos tanto, até que nada mais nos resta se não o cansaço. E, como aprendemos que nosso valor é medido por expectativas externas (por ideias inatingíveis de beleza, comportamento e sucesso), passamos a nos olhar com mais dureza do que olharíamos para qualquer outra pessoa. Tem momentos em que a cobrança interna é tão intensa, que despertamos sentimentos de insuficiência e inadequação, independente do quanto nos esforçamos. São nessas constantes tentativas de responder aos ideais dos outros que, acidentalmente, as mulheres renunciam a elas mesmas.
Na experiencia de mundo que se constitui dessa forma, os genuínos atos de autocuidado, de autopreservação e de autovalorização se perdem. Ou, nos esporádicos momentos em que se fazem presentes, são atravessados por um profundo sentimento de culpa. Só que quando uma mulher se culpa, ela se vigia, se cobra, se limita. Se impede de fruir de sua existência sagrada, de brincar, de rir, de ser espontânea, de sentir tesão.
Talvez, um dos primeiros passos para se libertar daquilo que nos limita seja o resgate da sabedoria de nós mesmas como seres humanos completos com agência, individualidade e valor. A autovalorização, não é apenas se sentir bem consigo mesma, ou gozar de uma boa autoestima, é a clareza de que o seu valor não está condicionado ao servir as outras pessoas e a certeza da sua condição ontológica de ser livre. Se autovalorizar é reafirmar, todos os dias, que você é suficiente. Você basta.
Essa é uma tarefa difícil e longínqua, mas vamos começar aqui, juntas, no simples ato de refletir sem pressa. Vamos começar reconhecendo que nesse momento você não precisa provar nada para ninguém, nem para si mesma. A sua presença aqui, hoje, serve apenas a você.
Mas quem é você? Lembra daquele olhar de julgamento que você lança a si mesma? Ele realmente é genuíno? Você é realmente aquela pessoa que enxerga? Ou será que aquele olhar é apenas reflexo de um permanente estado de cobrança e da dificuldade de reconhecimento dos motivos que você tem para orgulhar-se de si mesma?
Vivemos com inúmeras exigências, que muitas vezes são impossíveis de conciliar. As mulheres precisam ser excelentes profissionais, mães dedicadas, parceiras compreensivas, filhas cuidadosas, donas de casa exemplares e, ainda por cima, atraentes. Qualquer falha (ou a simples sensação de que não estão dando conta), é o suficiente para que as mulheres se sintam pequenas e se punam por isso. Mas o que aconteceria se, em vez de nos punirmos, ao sentirmos que falhamos nos acolhêssemos com a mesma compaixão que acolhemos as outras pessoas? O que aconteceria, se pudéssemos nos orgulhar das tentativas que fizemos? Do nosso esforço? Da nossa história?
É possível que você pense que ter orgulho é uma coisa ruim. E, mais uma vez te digo, isso não é necessariamente verdade. Como fomos ensinadas a buscar validação externa, o orgulho próprio foi transformado em algo negativo. Enquanto nos homens o orgulho é associado a competência e a liderança, nas mulheres, ele é rotulado como vaidade, arrogância ou futilidade. Acontece desse jeito porque uma mulher que sente orgulho de si mesma não precisa da aprovação dos outros para se sentir um sujeito de valor. Isso representa uma verdadeira ruptura com a lógica de submissão das mulheres aos outros. Aquela que sabe de si, que se orgulha de suas conquistas, de quem ela é e do que ela faz, se torna menos suscetível aos outros. Uma mulher perigosa, eu diria.
Assim, resgatar o orgulho é uma forma de resgatar o direito de existir para si. Para muitas mulheres, sentir orgulho de si mesmas é um processo de reaprendizagem. Mas, juntas, podemos começar com pequenos atos: reconheça seu próprio esforço e dê crédito às suas conquistas; permita-se falar sobre as suas vitórias sem minimizar o seu mérito; simplesmente pare de pedir desculpas por tudo; olhe no espelho para o espelho com carinho, lembrando todas as coisas maravilhosas que o seu corpo te proporciona; se cerque de mulheres que também estão nesse caminho e que vibram com suas conquistas; permita-se errar, assim como qualquer outra pessoa erra.
Mas lembre-se, valorizar-se também significa impor limites. Se doar não pode ser um requisito para se sentir digna de amor ou de reconhecimento. Dizer "não" pode ser um verdadeiro ato de respeito próprio. Durante séculos, as mulheres foram ensinadas a serem "delicadas", a não interromperem, a falarem baixo ou a não falarem nada. E, se pensarmos na trajetória das mulheres na história, muitas daquelas que ousaram falar foram silenciadas, ridicularizadas ou punidas. Mas foram justamente as vozes dessas mulheres que pavimentaram o caminho que hoje nos permite questionar e transformar nossas realidades. A voz é sua, use-a! Grite, se precisar. Use-a para aquilo que faz sentido para você. Fale o que você quer, o que te dá prazer e o que te faz sentir viva. Mas não esqueça de falar aquilo que te incomoda, aquilo que te desrespeita, aquilo que já não te serve mais.
E sobre o nosso corpo... Bom, não é possível existirmos para nós mesmas sem reivindicá-lo. A reapropriação do corpo e a reivindicação da própria sexualidade pelas mulheres é um processo de rompimento com as normas reguladoras que restringem os seus desejos, prazeres e expressão sexual. Essa reivindicação passa pelo direito de experimentar e explorar o próprio desejo sem culpa ou vergonha, e pela possibilidade de fazer escolhas que não respondam aos outros. Em outras palavras, é a recusa a condição de objeto.
Nessa perspectiva, o resgate o erótico, que nada mais é do que o saber do prazer que se sabe capaz de sentir, é essencial. É um sentir que colore a vida, que sensibiliza e fortalece todas as experiências e que torna as mulheres menos dispostas a aceitar a impotência, a resignação, o autoapagamento, a autonegação, a depressão. O convite que se deixa aqui é para a manutenção da lembrança de quão divertida e prazerosa pode ser a experiência sensorial e sentimental de estar viva em uma materialidade corpórea que é sua, em suas inúmeras formas e possibilidades.
Por fim, permita-se partilhar tudo isso com alguém ou alguéns. Mas não esqueça que “aceitamos o amor que achamos que merecemos”. Se as mulheres foram ensinadas a se observarem com dureza, a se sentirem culpadas e a duvidarem do próprio valor, é esperado que aceitem menos do que merecem. Mudar essa realidade passa por ressignificar o que acreditamos sobre nós mesmas. Significa olhar para dentro e perguntar: eu realmente acredito que mereço cuidado, respeito e reconhecimento? Por que aceito menos do que aquilo que eu ofereço aos outros? Se uma amiga estivesse na minha posição, eu diria que ela merece mais do que isso?
A autovalorização não é um luxo ou egoísmo, é uma forma de resistência, um ato de reconexão com tudo aquilo que tentaram tirar de nós.
Resista.




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