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Janeiro Branco: a Saúde Mental da Mulheres

Há mais de uma década, o mês de janeiro foi presenteado com a cor branca e o período do ano, que simbolicamente está associado a recomeços, passou a ser reconhecido também pela campanha de sensibilização da população brasileira para a importância do cuidado com a saúde mental e do bem-estar psicológico.

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De acordo com o criador da iniciativa, o psicólogo mineiro Leonardo Abrahão, a escolha do nome “Janeiro Branco” foi feita para remeter à ideia de uma “folha em branco”, a possibilidade de um recomeço. A campanha proporcionaria uma chance para as pessoas reescrevem suas histórias e suas práticas diárias, procurando colocar no papel versos que expressassem cuidado e carinho consigo mesmas.

Em 2023, a Lei 14.556/23 instituiu a campanha Janeiro Branco nacionalmente, dando reconhecimento e força institucional à iniciativa de promoção da saúde mental no país. O artigo dois da referida lei aponta que “Nos meses de janeiro serão realizadas campanhas nacionais de conscientização da população sobre a saúde mental, que abordarão a promoção de hábitos e ambientes saudáveis e a prevenção de doenças psiquiátricas, com enfoque especial à prevenção da dependência química e do suicídio”.

No ano em que a Lei foi sancionada, o Brasil, segundo dados publicados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), liderava o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da sua população afetada. Os transtornos de ansiedade e depressão, assim como os demais Transtornos Mentais Comuns (TMCs) podem reduzir significativamente a qualidade de vida, afetar a saúde física, o bem-estar econômico e as relações interpessoais das pessoas que com elas vivem.  Já para o Estado, as consequências do adoecimento mental da pessoas envolvem o aumento dos gastos com saúde pública e a queda na produtividade econômica, em razão dos contínuos afastamentos do trabalho. Esses são apenas alguns dos motivos pelos quais o tópico é tão relevante para o país.

Na contemporaneidade, a saúde mental não se reduz a ausência de adoecimento psíquico. Saúde mental é o resultado de uma complexa interação entre fatores sociais, ambientais, biológicos e psicológicos. Essa perspectiva expandida possibilita lançar luz ao campo coletivo, compreender as relações entre os contextos e as formas de enfrentamento e colocar em prática ações de prevenção, promoção e proteção da saúde, sem negligenciar os aspectos individuais. Ela aspira a práticas que consideram o bem-estar coletivo e a sobreposição entre os hábitos de saúde e o campo político, o que obriga as profissionais de saúde a observarem as particularidades de diferentes grupos sociais. Em sociedades patriarcais, o gênero é um importante determinante social, portanto ele precisa ser considerado nos processos de diagnóstico e adoecimento.

O relatório “Esgotadas: empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres”, resultante de uma pesquisa realizada pela Organização não governamental (ONG) Think Olga, publicado em 2023, aponta que das mulheres entrevistadas, quase a metade (45%) já foram diagnosticadas com algum tipo de transtorno mental. O relatório enfatiza que as mulheres têm vivenciado um estado contínuo de sobrecarga e que essa sobrecarga é identificada como um fator primário que contribui para a deterioração da saúde mental entre elas. A pesquisa incluiu um total de 1.078 mulheres com idade entre 18 e 65 anos e foi  realizada em todos os estados do Brasil.

O relatório destaca um elemento essencial para pensar a saúde mental das mulheres, que é a relação que elas estabelecem com o cuidar. Em países como o Brasil, as mulheres são majoritariamente atravessadas pelo ideal do cuidado (do outro) e pela devoção (ao outro). Além de cuidar das outras pessoas (maridos, filhos, amigos, familiares), as mulheres também cuidam do lar e, apesar de estarem cada vez mais presentes no mercado de trabalho e no mundo acadêmico, a divisão do trabalho doméstico permanece amplamente desigual, forjando aquilo que veio a ser chamado de “terceira jornada de trabalho”.  

O trabalho doméstico é frequentemente subvalorizado e não reconhecido como “trabalho real”, o que contribui para a relutância dos homens em se engajar nessas tarefas, que permanecem relegadas as mulheres. Ao arcar com as responsabilidades de cuidar, as mulheres estão sendo levadas a exaustão física e emocional

As normas de gênero, em um processo histórico, também canalizaram as mulheres para exercícios profissionais associados aos cuidados. A feminização de algumas profissões, resultou na precarização das condições de trabalho e de salários o que reflete uma subvalorização social mais ampla do trabalho feminino. Como resultado, as mulheres podem se encontrar em funções que não oferecem oportunidades iguais de progresso ou estabilidade financeira em comparação as profissões consideradas masculinas.

O trabalho invisível, particularmente no contexto das responsabilidades domésticas e do cuidado, pode afetar significativamente as carreiras das mulheres, que por gerenciarem responsabilidades profissionais e extensas tarefas domésticas experienciam dificuldades para se concentrarem na progressão na carreira ou nas oportunidades de desenvolvimento profissional. Muitas vezes, as mulheres se veem incapazes de buscar promoções ou responsabilidades adicionais no trabalho devido ao tempo e à energia necessários para o trabalho em casa e se sentem culpadas ou impossibilitadas de priorizarem suas carreiras em detrimento das responsabilidades familiares.

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Muitas das mulheres entrevistadas para a pesquisa da ONG Think Olga expressaram o desejo de mudar sua situação financeira e de trabalho, sendo esses os elementos que mais trouxeram insatisfação para elas. O descontentamento no campo profissional e o estresse financeiro podem desencadear sentimentos de desamparo e opressão e colocar as mulheres em posição de vulnerabilidade.

Um dos elementos mais importantes a serem considerados ao se discutir a saúde mental das mulheres é a violência de gênero. Em sociedades patriarcais as relações de gênero foram construídas com base no exercício de poder por parte dos “homens enquanto grupo” e na subordinação das “mulheres enquanto grupo”, algo que está profundamente enraizado nas normas e práticas culturais brasileiras. A 10ª edição da pesquisa Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher feita pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) mostra que 30% das mulheres do país já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem.

São inúmeras as formas de violência que as mulheres sofrem, como: violência física: qualquer ato que prejudique a integridade física da mulher, como espancamento ou estrangulamento; violência psicológica: ações que prejudicam o bem-estar emocional e a autoestima, incluindo manipulação e insultos; violência sexual: coerção em atividades sexuais indesejadas, que podem incluir estupro e atos sexuais forçados; violência patrimonial: controle ou destruição dos pertences pessoais e recursos financeiros de uma mulher; e violência moral: atos de difamação ou calúnia que degradam o caráter de uma mulher.

A exposição à violência de gênero tem efeitos profundos na saúde mental das mulheres. O trauma de tais experiências pode levar a condições como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade e baixa autoestima. Viver em uma sociedade que normaliza a violência contra as mulheres contribui para o sofrimento de todas as mulheres.

As mulheres brasileiras ainda são regularmente expostas a padrões de beleza inalcançáveis, que normalmente são caracterizados pela juventude, pela magreza e pela branquitude. Elas são ensinadas a compreender a beleza física como um componente imperativo para o sucesso social, financeiro e romântico e, aos poucos sua autoestima passa a estar intimamente ligada à aparência. Com a popularização de procedimentos estéticos, a beleza passou a ser considerada um atributo moral e um dever das mulheres. Essa conexão entre a beleza e o valor moral pode levar a uma sensação de inadequação para aquelas que não estão em conformidade com esses padrões, além de criar uma pressão constante para que as mulheres modifiquem os seus corpos.  

Para além de considerado nos processos de adoecimento, o gênero também deve ser considerado nos processos de diagnóstico. Apesar da construção e adoção sistemática de critérios diagnósticos, o ato diagnóstico não é um ato neutro, ele é um processo clínico, atravessado pela subjetividade do (a) profissional de saúde (seja do campo da psiquiatria ou da psicologia) que o realiza. Da mesma forma, também é possível argumentar que os sintomas em saúde mental são gendrados, ou seja, os sintomas são associados a determinado gênero. Por exemplo: comumente, as mulheres demonstram o sofrimento ou descontentamento por meio do choro, resposta emocional que é socialmente coibida nos homens. Em contrapartida, dos homens é esperado que a dor seja externalizada pela agressividade ou irritabilidade, resposta emocional socialmente reprimida nas mulheres.

Os processos diagnósticos, se não forem sensíveis as experiências específicas de gênero em saúde mental, podem ser influenciados por preconceitos culturais que favorecem os papéis tradicionais de gênero e interpretam sinais e sintomas por meio de uma lente que prioriza as experiências masculinas. Isso pode resultar em diagnósticos equivocados, subdiagnósticos de transtornos em mulheres e a patologização de problemas da vida cotidiana.

Todos esses são segmentos que afetam profundamente a saúde mental das “mulher brasileiras enquanto grupo”. São questões estruturais que denunciam formas de pressão, violência e discriminação que, por consequência, comprometem o bem-estar das mulheres e exigem ações que respondam a elas em uma perspectiva regional e nacional. Campanhas como a do Janeiro Branco não podem se limitar ao estímulo de reflexões e práticas individuais de bem-estar. A saúde mental pressupõe dignidade social, políticas públicas e condições socioeconômicas adequadas, e no caso das mulheres, pressupõe a reversão de uma estrutura que as esgota, marginaliza e violenta.

É valido notar que é crucial que a discussão iniciada aqui seja amplificada em uma perspectiva interseccional para compreender as complexidades das mulheres nas dinâmicas sociais.

  

 

Fontes:



COSTA-ROSA, A. Atenção psicossocial além da reforma psiquiátrica: contribuições a uma clínica crítica dos processos de subjetivação na saúde coletiva. São Paulo: Editora Unesp, 2013. 


Instituto Janeiro Branco. https://janeirobranco.org.br/


Think Olga (ONG). Esgotadas: empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres. Disponível em: https://lab.thinkolga.com/esgotadas/


ZANELLO, Valeska. A Prateleira do Amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações. Curitiba: Appris, 2022.


ZANELLO. Valeska, Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação.1ª ed. Curitiba, Appris, 2018.

 

 
 
 

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